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Salvador é a meca negra: todo negro precisa ir pelo menos uma vez

Com 80% da população de pele preta ou parda, a capital da Bahia respira cultura e africanidades
Texto: Guilherme Soares Dias / Fotos: Heitor Salatiel
Há uma ligação ancestral em Salvador, uma sensação de pertencimento, de já ter estado naquele lugar, sem que já tenha de fato ido para lá antes. Quem é negro e já esteve na cidade sabe do que estou falando. Mais do que isso: Salvador é a Meca negra. É o lugar que todos os pretos precisam ir pelo menos uma vez na vida. E minha dica é: quando o fizer tente ir no verão e ficar mais do que apenas uma semana. Recomendo pelo menos 15 dias, mas se puder passar 30 dias inteiros garanto que não vai se arrepender e ainda vai sair com a sensação de quero mais.
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Caetano Veloso canta que a cidade é a “Roma negra” em referência a ser a matriz de várias casas de candomblé. Para além disso, Salvador é berço da cultura, da música, da criatividade e de uma negritude no modo de ser cidade. “É um capital negra, não apenas na população, mas na sua estrutura. A arquitetura de favela é preta – foi idealizada pelos nossos irmãos. O comércio é negro, o nome das coisas é em iorubá, os marcos turísticos têm a ver com cultura de terreiro”, aponta Cinthia Gomes, jornalista e empreendedora carioca, radicada em São Paulo, que é filha de uma baiana e adora dizer que é da Bahia.
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Cinthia lembra que, em geral, os negros soteropolitanos são muito orgulhosos de sua cor e que a subalternidade que acomete nosso povo é menos presente lá. “Isso não só os militantes e, apesar do racismo, as pessoas comuns sabem do seu valor. Isso transforma Salvador em um lugar mágico em que eu me reconecto comigo mesma, recarrego minhas energias e fortaleço minha identidade. Deixo de ser a diferentona, a única preta dos lugares, para ser mais uma negra que pode ser ela mesma livremente”, diz a baiana por afetividade.
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Salvador é também berço da história dos negros no Brasil, onde aportaram os primeiros africanos escravizados. E foi ainda território fértil da resistência. “Se você der um passeio pela histografia não-oficial verá que aqui foi o maior palco de insurreições, de levantes, de revoluções que o Brasil já conheceu. Foi aqui que se derramou muito sangue, que se lutou por liberdade, por igualdade. Os quilombos que essa terra tem se somam aos quilombos urbanos, como o Curuzu”, aponta Arany Santana, secretária de Estado de Cultura da Bahia e ex-diretora do Ilê Aiyê.
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Candomblé. Ela lembra que a elite africana aportou na cidade e criou uma magia que se desdobrou no samba, na capoeira e no candomblé. “Temos uma força dos terreiros de candomblé, liderado por mulheres negras. Isso é muito complexo, por isso, essa energia forte. A gente bebe nesse quilombo inesgotável. E quem reuniu tudo isso foi o terreiro de candomblé. Aqui tem o ritmo, tem a cor, tem a língua, tem a beleza, tem a comida. Está tudo aqui. É uma nação, é um país. O terreiro de candomblé é uma pequena África dentro desse território. Aqui na Bahia isso é uma herança, esse quilombo, que bebemos todos os dias, e, talvez nem nos damos conta. Mas a gente está nesse turbilhão, de passado e presente com um olho no futuro também”, diz Arany, vestida de branco, dando entrevista no terreiro Ilê Axé Jitolu, que deu origem ao bloco afro Ilê Aiyê.
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A servidora pública Izabel Esther vai para Salvador toda vez que precisa se reconectar consigo mesma. “Sou sul-mato-grossense, moro em São Paulo, mas minha alma é baiana. Então, preciso alimentar essa alma também. É minha base de reflexão, um berço, com fonte de energia, que me sugere transformações. É como o rebentar do mar que depura e me traz coisas novas”, define. Praticante do candomblé, Izabel diz que enquanto em São Paulo precisa ir a um terreiro para se conectar, em Salvador faz isso com o mar, com o vento, com o sol. “É buscar axé na fonte. Minha relação com orixás independe de intermediários”, afirma. Ela sente essa energia desde a primeira vez que visitou a cidade em 2000. “Sou muito sensível. E senti que não estava pisando em qualquer território no Brasil. Não tem como sair a mesma coisa que entrou”, resume.
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A cantora Luedji Luna acredita que teve sorte em nascer na capital da Bahia, “a cidade mais negra fora da África”. Com isso, não precisou se deslocar para conhecer a cidade, mas quando está em outros espaços entende a importância do lugar do qual veio. “Percebo o quanto Salvador me representa. É meu espelho, em todas as esquinas, o que não acontece em outras cidades como São Paulo. Por essa razão, é que as pessoas negras da diáspora (movimento de migração em massa) se sentem tão em casa. É como se fosse um fragmento da África, fora do continente”, resume.
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Blocos afros. A presença de blocos como o Ilê Aiyê, que tem grande valor cultural e político para a população negra é ressaltada pela cantora Daniela Mercury. “Temos organizações dessa magnitude, com conhecimento e profundidade. Essa ancestralidade africana, que é também a brasileira, essa ocupação de espaço existe em Salvador de uma maneira grandiosa. Somos um povo só. A cidade manteve as raízes e a ligação com a mama África. E, lembrando todas as pessoas da terra, não só os negros, são filhos da África. Quem não sabe disso, não sabe de si”, lembra a rainha da axé music, que se define como negra da pele branca e que canta em iorubá desde os oitos anos.
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Já o ator Lázaro Ramos, que nasceu em Salvador, ressalta que a cidade tem um jeito de ser, de viver e de se comportar que descreve muito das conquistas identitárias da população negra. “É uma maneira única de encarar a vida, com raízes da nossa relação com a África que se expressa em todos os lugares: de maneira mais tradicional nos terreiros e em forma de entretenimento nos blocos afros, que também valorizam nossa autoestima, a nossa vestimenta e os nossos cabelos”, afirma. O ator, que mora no Rio de Janeiro, diz que sente falta desse alimento diário. “Sempre que eu vou para lá, eu volto mais consciente do que sou. E eu sei bem o que estou falando. O orgulho de ser negro é perceptível em qualquer local que você vá. É um lugar que acolhe muito a negritude. Qualquer negro que for vai se sentir acolhido, fazendo parte”, considera.
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Dendê como fonte. O baiano Paulo Rogério Nunes, publicitário e criador do Vale do Dendê, uma aceleradora de afroempreendimentos que pretende impulsionar o capital criativo da cidade, acredita que Salvador é uma capital única no Brasil por conta da sua africanidade. Paulo Rogério propaga essa ideia da cidade ser uma Meca negra, em que todos os pretos precisam estar uma vez na vida. “É algo que não tem em nenhum outro lugar, desde a música, a estética das pessoas e da cidade, a gastronomia, o modo de vida. Isso contribui para transformar Salvador em um local muito especial e atrativo para pessoas de origem africana e afrodescendentes, não só do Brasil, mas de outras partes do mundo também”, ressalta.
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Essas características fazem, segundo o criador do Vale do Dendê, a cidade ser recomendada para quem quer se reconectar com suas origens, com suas raízes e também quer buscar entender as questões contemporâneas da negritude. “Daqui surgiram os principais movimentos culturais negros históricos, como os blocos afro, o samba reggae, o samba e a capoeira. E mais recentemente a própria Batekoo, festa de jovens negros periféricos, que está em todo Brasil e discute a nova contemporaneidade negra. É a cidade mais diaspórica do Brasil”, conclui.
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E um lugar chamado Salvador não tem esse nome atoa. Assim como Meca, nos Emirados Árabes, em que os mulçumanos vão atrás de uma energia sagrada, se religar e se reconectar com Alá, a capital baiana é um local em que as pessoas negras vão buscar a si mesmas, vão matar uma saudade de um lugar que nem conhecem. Mesmo quem vai atrás apenas de praia e sol é envolto pelo cheiro de dendê, se encanta com os orixás iluminados do Dique do Tororó, se emociona com o padre que canta “um abraço negro” durante a missa no Pelourinho. São sons de tambores que chamam a cada esquina. Toques presentes até nas igrejas evangélicas.
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E mesmo os brancos tem uma negritude embutida no rebolar, nos costumes, na ascendência. É um jeito de andar, as ervas vendidas nas esquinas, todas as pessoas de branco na sexta-feira, a energia forte de Iemanjá e dos orixás que olham pela cidade. A alegria libertária do carnaval. É a moqueca, o aipim, o inhame. A arquitetura antiga, misturada com os morros, com o mar. Há um orgulho de ser quem é, na beleza anônima das pessoas comuns, com seus turbantes, com seus blacks. Os pretos sabem de seu valor. É algo orgânico, natural. E nem de longe é só romântico. É duro, é violento, é racista, é machista e tudo isso se soma a toda a complexidade de uma cidade pulsante. Essa sensação de já ter estado lá não se explica de forma objetiva. Mas a gente se sente especial em estar. Se reconecta, se sente parte. E volta mais preto.
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